Junho de 2009 – “A estabilidade da moeda adquirida com o Plano Real transformou-se numa segunda bandeira de todos os brasileiros”

entrev6Entre os feitos de Itamar Franco na Presidência da República, o mais marcante certamente é as estabilizações econômicas, alcançadas com o Plano Real.

Para comemorar os 15 anos de seu lançamento (1994-2009), o Presidente Itamar nos concedeu, via e-mail, a seguinte entrevista. Nela o presidente destaca como foi o processo para a realização do Plano, aspectos comparativos de seu governo com outros e afirma que em sua gestão não houve nenhum desvio moral ou ético.

1.Como se deu o primeiro contato do senhor com a idéia do Plano  real e como foi seu planejamento?

ITAMAR: A essência do processo político é reconhecer que Prefeitos, Governadores e Presidentes se comportam como que numa corrida contra obstáculos e, quando o processo é democrático, sempre passam o bastão após o término do mandato. O trabalho em prol do país é uma sucessão de esforços ao longo do tempo. Reconhecendo o que os antecessores fizeram. Procuro iluminar o processo histórico diferentemente dos que negam o passado.

Ao indicar os Ministros Paulo Haddad e Gustavo Krause, na primeira semana de Governo, uma revista nacional estampou: Ministros Pífios

E, sabem por quê? Um era mineiro e outro do Nordeste.

Em fevereiro de 1993, com a saída do Ministro Krause, entra Eliseu Rezende e em maio é indicado Fernando Henrique Cardoso. Todos sabiam da necessidade de combatermos a inflação – aproximadamente 2 dígitos por dia.

2. Quais foram as principais reações, no âmbito interno e externo, a partir do nfhcovo Plano Econômico implementado em nosso país?

ITAMAR: A 1ª etapa do Programa de Estabilização Econômica – ajuste das contas do Governo – era viabilizada pelo Congresso, ao criar o Fundo Social de Emergência.

“Reformas fundamentais, não só para atacar com eficácia as causas da inflação crônica e buscando reverter o quadro de injustiças sociais.” Temos:

  • O processo de mudança do regime fiscal;
  • O processo de mudança do regime monetário;
  • Construção e uso da Unidade Real de Valor.

Ainda: A atual sistemática que busca a recomposição dos salários pela inflação passada não mantém a estabilidade do poder aquisitivo. Não há regra de indexação que defenda os salários da inflação “transcorrida” dentro do mês.

Temos, então, a “mensalização” dos reajustes salariais na U.R.V. – após a introdução do Real. Buscava-se um reforma monetária e não apenas uma mudança no regime salarial. Reações e dificuldades no plano interno foram muitas, face a outros planos anteriores.

3. Quais foram as maiores dificuldades em adaptar a nova política no âmbito interno, tendo em vista as políticas públicas e a conjuntura nacional?

ITAMAR: Ao contrário de outros planos que fracassaram, o Programa de Estabilização não congelou preços (Decreto não abaixa a inflação). O processo inflacionário para ser combatido precisava ter Governo e Sociedade juntos em políticas macro-econômicas.

É de se notar que os preços públicos e tarifas são distintos dos praticados pelo setor privado. Seus ajustes são determinados nas esferas do Governo federal, estadual e municipal.

Preços abusivos, uma vez identificados, acionavam-se os instrumentos existentes para coibir práticas lesivas. Nunca houve o mecanismo de controle de preços.

Em maio de 1994, o então Ministro Ricupero, por exemplo, em nome do Governo, confirmou que não haveria controle de preços, face a declaração de um Presidente de uma cadeia de gêneros alimentícios. Observações significativas:

  • Em fevereiro de 1994 é assinada a Medida Provisória que institui a U.R.V.;
  • O Banco Central regulamenta a U.R.V. (1994);
  • Ministro da Fazenda vê preços abusivos (1994);
  • Fevereiro, 28 (1994) inflação de 42,1%;
  • Março de 1994 U.R.V. vale 647,50;
  • Congresso prorroga o prazo de revisão constitucional;o A inflação em 31 de março (94) vai a 44,83%;
  • Abril de 94 – Ricupero assume;
  • Abril de 94 – juros chegam a 60% e inflação a 50%;
  • Abril de 94 – fechado acordo com credores da dívida;
  • Abril de 94 – importações mais baratas para conter preços;
  • Abril de 94 – reedição da U.R.V.;o Maio de 94 – anunciado que o Real entra em vigor a partir de 1º de julho de 1994;
  • Em 27 de maio de 94 é aprovada a U.R.V.;
  • Junho de 94 – é sancionada a lei antitruste;
  • Junho de 94 – distribuição de moedas e cédulas do Real;
  • Junho de 94 – fiscalização das empresas;
  • Meios de pagamento representam 1,32 do PIB;
  • U.R.V. vale CR$2.750,00;
  • 30 de junho de 94 – inflação de 45%;
  • Política fiscal, monetária, cambial (junho,30,1994);
  • Julho, 1º, 1994 – entra em vigor o Real.

- Notas produzidas S/DMB

entrev5
4. Como o Plano Real foi eficaz no combate à inflação?

ITAMAR: Em uma semana os preços começam a ceder. Produtos da cesta básica estão em média 0,38%. O consumidor está atento e quer que o plano dê certo.

Em julho, 13, dólar a 93 centavos do Real. Em julho, 1994, inflação praticamente zero.

5. A recusa pela oposição em aprovar a lei do Plano Real fez com que fosse necessária a reformulação da medida provisória que implementou o plano. Como foi esse processo e em que medida a escolha por uma MP foi tida como a solução?

ITAMAR: As respostas anteriores mostram o valor do Plano Real, apesar de algumas vozes, poucas é verdade, não acreditarem nele.

6. Como o senhor avalia os resultados do Plano Real após o final de seu mandato?

ITAMAR: No plano político, a eleição do novo Presidente – Fernando Henrique Cardoso.Chamamos atenção que, em 1995, era necessário promover as reformas fiscal e tributária e o novo pacto federativo, o que não foi feito.

7. Tendo em vista as inúmeras trocas monetárias que ocorreram no Brasil e analisando o que está ocorrendo no cenário internacional, o senhor acha possível que daqui alguns anos tenhamos que substituir a moeda em vigor?

ITAMAR: A médio prazo acho difícil. No futuro, quem sabe!? Aí está o Euro e a crise global.

Algumas anotações:

  • No nosso governo a carga tributária girava em torno de 25%;
  • O mercado não poderia controlar tudo – o poder de dirigir a Nação não é do mercado;
  • O Ministro Ricupero foi substituído pelo Ministro Ciro;
  • No nosso governo não houve nenhum desvio de conduta moral ou ética.

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Brasil – Evolução do PIB Nacional Em relação ao PIB Mundial (Taxa de Variação Anual – Em %)

Ano Brasil Mundo
1993 4,7 2,4
1994 5,3 3,8
1995 4,4 3,7
1996 2,2 4,1
1997 3,4 4,2
1998 0,0 2,7
1999 0,3 3,8
2000 4,3 4,7
2001 1,3 2,2
2002 2,7 2,8
2003 1,2 3,6
2004 5,7 4,9
2005 3,2 4,5
2006 4,0 5,1
2007 5,7 5,0
2008 5,1 3,4

*Estimativa para 2008

Fonte: IPEAData / international Monetary Fund-International Financial Statistics
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A Diferança do Crescimento do PIB Brasileiro  e o Mundial desde o início dos anos 50 – por Governo (Crescimento Médio Anual por Período de Governo – Em %)

Governo PIB Médio Diferença
Brasil Mundo
Mèdici
(5 anos)
11,9 5,4 6,5
JK
(5 anos)
8,1 3,6 4,5
Jânio Quadros
(1 ano)
8,6 4,4 4,2
Ernesto Geisel
(5 anos)
6,7 3,8 3,0
Costa e Silva
(3 anos)
7,8 4,8 3,0
Itamar Franco
(2 anos)
5,0 3,1 1,9
Getúlio Vargas
(4 anos)
6,2 4,8 1,4
José Sarney
(5 anos)
4,4 4,0 0,4
Figueiredo
(5 anos)
2,5 2,9 -0,4
Lula
(6 anos)
4,1 4,5 -0,4
FHC
(8 anos)
2,3 3,5 -1,2
Castelo Branco
(3 anos)
4,2 5,5 -1,4
João Goulart
(3 anos)
3,6 5,1 -1,5
Collor -1,3 2,3 -3,6

Fonte: IBGE / IPEAData / FMI / MinasPart / Jornal O Globo
_______________________________________________________

Brasil – População

Ano Número de Habitantes* (MIL)

Taxa de Crescimento

Anual – %

1994 156.431 1,59
1995 158.875 1,56
1996 161.323 1,54
1997 163.780 1,52
1998 166.252 1,51
1999 168.754 1,50
2000 171.280 1,50
2001 173.822 1,48
2002 176.391 1,44
2003 178.985 1,38
2004 181.586 1,32
2005 184.184 1,26
2006 186.771 1,18
2007 187.642 1,12
2008 189.613 1,05

*Em 1º de julho de cada ano.

Fonte: IBGE / Banco Central do Brasil
_______________________________________________________

Em relação ao PIB – Produto Interno Bruto

Ano Nominal Primário
1994 -39,88 5,04
1995 -7,19 0,36
1996 -5,88 -0,09
1997 -6,07 -0,91
1998 -7,93 0,01
1999 -10,49 3,28
2000 -4,43 3,50
2001 -5,22 3,70
2002 -10,24 4,01
2003 -3,74 4,38
2004 -2,48 4,64
2005 -2,75 4,35
2006 -2,90 3,90
2007 -2,12 4,03
2008 -1,53 4,07

(-) Déficit  (+) Superávit
_______________________________________________________

Finalmente:

Segundo o Professor Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, economista, presidente da ASSEMG-Associação dos Economistas de Minas Gerais, do IBEF-MG-Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de Minas Gerais e Editor Geral da Revista MercadoComum:

“Uma outra questão de extrema importância de ser mencionada é que o Plano Real ocorreu no pleno exercício de uma democracia ainda considerada incipiente e após pouco tempo decorrido do impeachment de um presidente da República. De lá para cá, a estabilidade alcançada tem sido fator facilitador e colabora substantivamente para a conjugação do fortalecimento das instituições e a consolidação do processo democrático entre os brasileiros.

A estabilidade da moeda adquirida com o Plano Real transformou-se numa segunda bandeira de todos os brasileiros e creio que nenhum político atual seria audacioso o suficiente para negá-la ou para propor qualquer medida que viesse a comprometê-la, seja no curto, médio ou longo prazos. Seria, simplesmente, execrado em praça pública.

Juntamente com o Plano, somaram-se outras relevantes conquistas, algumas delas com o poder, inclusive, de justificar inúmeros aspectos saudáveis com que atualmente se beneficia a economia nacional.

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