Henrique Altemani de Oliveira*
Sem espaço para uma reflexão mais profunda para um tema tão complexo, meu propósito é considerar algumas premissas básicas deste processo conflituoso e as principais causas da atual crise. Mas, resumidamente, toda a questão decorre de dois fatores: i) a ausência de vontade política dos atores regionais e dos EUA em solucionar o problema e ii) a falta de vontade do governo norte coreano em flexibilizar o sistema político interno.
A Coréia do Norte (CN), com forte padrão de desenvolvimento até a metade dos 70, passou, a partir dos 80, a apresentar problemas econômicos ampliados com o processo de desintegração da União Soviética.

O reconhecimento diplomático Coréia do Sul/Rússia e CS/China ampliou o isolamento norte-coreano em decorrência dos compromissos de redução dos laços com a CN e com a promessa de empenho na desnuclearização da península coreana.
O isolamento e a ausência de opções marcam o início da estratégia de acelerar a capacidade nuclear e utilizá-la como fator de negociação. Nas crises anteriores e nesta é óbvio o uso da questão nuclear para sobrevivência política e ajuda internacional.
O impasse da década de 90 (93/98) teve relativa solução com a assinatura de um Acordo Quadro entre EUA e CN. Pelo acordo, CN consentia em congelar e desmontar seu programa nuclear, assinar o TNP, substituir seus reatores nucleares por reatores de água leve, a ser fornecido por um consórcio externo, assim como o fornecimento de grãos e de petróleo para a geração de energia elétrica.
A crise anterior, 2002/2006, teve como bases a nova política de segurança dos EUA, com a declaração de a CN ser parte do eixo do mal; a interrupção no fornecimento de petróleo, de alimentos e não entrega do prometido reator nuclear. A CN que tinha iniciado um processo de reformas em 01/2002, retomou seu desenvolvimento nuclear, culminando com o lançamento de 4 mísseis balísticos em 07/2006 e com seu primeiro teste nuclear em 09/10/2006.
Se 2006 foi um ano de confronto, 2007 mostrou uma gradual reaproximação graças aos papéis desempenhados pelo Grupo dos Seis e pela Reunião de Cúpula CS-CN. As negociações só começaram a progredir quando EUA liberou a quantia de US$ 24 milhões da CN e depositados em um pequeno Banco de Macau, mas que o Tesouro dos EUA tinha retido sob a acusação de lavagem de dinheiro. O comunicado final da Reunião CS-CN indicava o compromisso mútuo de negociação de um acordo de paz que pudesse substituir o armistício assinado em 1953 entre EUA e CN e a retomada da cooperação econômica bilateral. Frente a este ambiente aparentemente mais cooperativo, CN retomou suas promessas de desativar o enriquecimento de plutônio em Yongbyon.
Em 2008, a situação novamente se altera em decorrência de 3 fatores: mudança da estratégia da CS, acirramento da crise alimentar na CN e o problema da sucessão de Kim Jong-il. O novo presidente da CS, Lee Myung-bak, passou a condicionar a cooperação econômica ao compromisso prévio de abandono das ambições nucleares por parte da CN. O crescimento da intervenção estatal devido à redução da oferta de grãos provocou forte redução da ajuda multilateral de alimentos. As especulações sobre a saúde de Kim Jong-il deixaram o ambiente político doméstico ainda mais instável devido à ausência de sucessores naturais. Os 3 centros do poder no sistema político (a família de Kim, o Partido dos Trabalhadores Coreanos e o Exército) não detêm o carisma construído em torno de Kim Il-sung ou de Kim Jong-il.
Assim, a combinação de instabilidade política com a miséria econômica, no plano doméstico, e a irrupção da crise financeira internacional e a posse de Obama, no plano externo, são ingredientes claros da retomada da atual estratégia de chantagem nuclear.
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* Henrique Altemani de Oliveira é Doutor em Sociologia pela USP, Professor de Relações Internacionais da PUC/SP e Coordenador do Grupo de Estudos Ásia-Pacífico. Foi Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília e Professor Visitante do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP.
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