Antônio Pedro Tota*
Uma cena do filme O Homem que Matou o Facínora (The man who shot Liberty Valance), de John Ford, dá uma boa idéia do significado do direito de voto adquirido pelos imigrantes. Ramson Stoddart, o advogado do leste recém-chegado em Chimbone, uma imaginária cidadezinha perdida no oeste, dá aulas de cidadania aos semi-analfabetos habitantes da localidade. Adultos e crianças. Num determinado momento, o improvisado professor pergunta à Nora, uma sueca, o que ela havia aprendido sobre a democracia. “Se o representante em quem votamos – respondeu a imigrante – não fizer o que prometeu, vamos dar um chute nos ‘manda-chuvas’ de Washington e não vamos votar mais nesses políticos”. Na época em que o filme foi ambientado, isto é, pouco depois da Guerra Civil, o voto ainda não tinha se estendido às mulheres, mas já havia clara consciência dos direitos. Direitos limitados, entretanto. Depois da Guerra Civil, teoricamente os ex-escravos estavam, teoricamente habilitados a votar. Durou pouco. Em 1877, o programa de reconstrução foi dado por encerrado e os negros livres voltaram a uma quase-escravidão, pelo menos em muitos estados do sul.

À medida que o eleitorado crescia os partidos começaram a tomar contornos mais nítidos. Nos anos 30 do século XIX, os partidos já eram organizações poderosas.
O Partido Republicano e Partido Democrata têm suas origens nos predecessores do século XIX e dominam totalmente o processo eleitoral. Com raríssimas exceções, são os dois partidos que controlam a presidência, o Congresso, a Câmara dos Deputados, os governos dos estados. Por exemplo, desde 1852 todos os presidentes foram eleitos ou pelo partido republicano ou pelo democrata. Há possibilidade da participação de outros partidos? Legalmente sim. Eles podem e têm seus candidatos. Mas, a máquina dos dois partidos é de tal forma poderosa que, na prática, é impossível a eleição por meio de um terceiro partido.
Os dois partidos majoritários não têm uma programação claramente ideológica. Há, isto sim, uma base mais pragmática o que facilita uma adaptação ao processo político.

O domínio dos dois partidos, desde os anos 60 do século XIX, está ligada a aspectos da estrutura do sistema político americano. A formação de bases nacionais do partido exige um aperfeiçoamento de gerenciamento, fontes de financiamento e apelo popular para vencer nos distritos legislativos por todo o país. Sob esse sistema, pequenos partidos ou o chamado terceiro partido não têm chance de ter representação. E alem do mais os americanos já acham suficiente a existência de dois partidos, já se aborrecem em ter que sair de casa para votar. Mais partido, mais confusão e mais trabalho. “Estamos satisfeitos com os dois partidos. Dois partidos dão conta de nossas aspirações políticas ideológicas”, parece dizer o eleitor. Além do mais, para o historiador Richard Hofstader “o destino dos Estados Unidos da América não é o de ser uma nação que possui ideologias, mas de ser uma ideologia.”1 Para os padrões europeus e latino-americanos, o povo americano não pode ser considerado muito politizado. Mas, para que ser politizado se sua nação já é uma ideologia?
Tecnicamente, os americanos não elegem o presidente e vice-presidente por meio do voto direto. Essa é uma atribuição do colégio eleitoral. Os americanos votam dentro de seus estados em um grupo de eleitores que se compromete com um ou outro candidato (somente um) e formam um Colégio Eleitoral. Cada Estado tem um determinado número de eleitores no colégio, baseado no tamanho de sua população. Em quase todos os estados, o vencedor do voto popular leva todos os votos do colégio eleitoral daquele estado. Por causa deste sistema, um candidato pode chegar à Casa Branca sem ter o maior número de votos populares em âmbito nacional. O número de eleitores corresponde ao número de representantes (deputados) e senadores de cada estado. A eleição do presidente requer maioria absoluta dos 538 votos dos 50 estados.
A recente e surpreendente eleição de Barack Obama, o americano com o nome menos americano, foi vencida tanto no voto popular quanto no voto do colégio. Mas note-se que o novo presidente esta falando com todo mundo, inclusive com McCain, o adversário de ontem. Os Estados Unidos são uma ideologia.
1 Cf LIPSET, Seymour Martin. American Excepcionalismo – a Double edge sword. New York:. W.W.Norton & company, 1996p.18.
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* Antônio Pedro Tota é professor de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e autor do livro O Imperialismo Sedutor.
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